Textos publicados originalmente na página do projeto Vamos Ler, às sextas, no Diário de Cachoeirinha.


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Sugestão de Atividade: Organização de sarau na escola



A palavra sarau vem do latim (seranus), através do galego (serao). Trata-se de um evento realizado à tarde ou à noite, em casa particular ou em outro espaço, em que várias pessoas se encontram para se expressar artisticamente, podendo haver quem participe apenas como público. Um sarau pode envolver, entre outras manifestações, dança, poesia, teatro e a leitura de poemas ou outros textos. Evento bastante comum no século XIX, o sarau vem sendo redescoberto por seu caráter democrático e descontraído.
O evento mais famoso deste gênero realizado no RS é o Sarau Elétrico (foto), que ocorre todas as terças-feiras, no Bar Ocidente, em Porto Alegre, sob o comando da radialista Kátia Suman. Há um grupo básico de escritores (Cláudio Moreno, Luis Augusto Fisher e Cláudia Tajes), que define o tema de cada edição e seleciona textos próprios ou alheios, para apresentar ao público. Outros escritores também participam, eventualmente como convidados especiais, assim como músicos e artistas cujas apresentações são programadas ou acontecem espontaneamente.
Em Cachoeirinha, o Clube Literário promove, no último sábado de cada mês, às 20h, na escola de idiomas Cipex (Rua Frederico Ritter, 51), um sarau que conta com uma grande assistência. Autores com obra publicada ou não apresentam ali seus poemas e vários outros artistas da cidade aproveitam para mostrar o seu trabalho. Há, também, espaço para a participação daquelas pessoas que não escrevem, mas gostam de poesia.
É muito fácil organizar um sarau na escola, o que pode ocorrer na biblioteca, em uma sala de aula ou em outro espaço. O ideal é que alunos e educadores se envolvam na definição do tema e na seleção dos textos e músicas que serão apresentados. O ambiente deve ser agradável e intimista, com luz suave ou de velas. Pode-se pedir o apoio de músicos, atores, bailarinos e artistas plásticos da escola ou da comunidade. Mas o mais importante, para o êxito desta atividade, é que cada participante se sinta motivado a apresentar textos de sua produção ou de outro autor ou a colaborar de alguma outra forma na concepção e/ou realização do sarau. É essencial que, nos dias anteriores, seja facilitado o acesso dos alunos, educadores e funcionários da escola a uma ampla variedade de poemas ou narrativas curtas, que podem ser expostos em varal, mural ou de outro modo, em espaço de grande circulação, para que cada um decida o que pretende ler na ocasião.


Tecendo a Feira - Próximas atividades



» Hoje, às 15h, na Casa do Leite, ocorre o microcurso Roteiros de leitura - Proposta para sistematizar o trabalho com literatura na escola, a cargo da professora Elaine Maritza. A editora Artes&Ofícios exporá seu catálogo de livros infantis e juvenis, que os interessados poderão adquirir com 50% de desconto sobre o preço de capa. Os inscritos podem levar livros para participar do 1º Troca-Troca do Tecendo a Feira. Inscrições: Biblioteca Municipal - 3471.2610.  

» Dia 1º de outubro, começa, na Biblioteca Pública, tendo com leitora-guia a professora Ana Paula Cecato, o ciclo de leituras partilhadas Poesia Sempre, que terá culminância na Feira, assim como o projeto Lendas Urbanas de Cachoeirinha (www.lendasdacachoeirinha. blogspot.com), desenvolvido por ela desde julho através da Internet. Todos os participantes receberão exemplares da revista literária Poesia Sempre, editada pela Fundação Biblioteca Nacional. Informações: anacecato@gmail.com - Inscrições - Biblioteca Municipal - 3471.2610


Poesia



Porém

Queria ter vivido melhor,
Porém a mediocridade sempre me foi farta e generosa
Nos caminhos que escolhi para viver.
Queria ter sido mais alegre,
Porém a tristeza sempre foi companheira fiel
Nos dias intermináveis de abandono.

Queria ter amado mais as pessoas que conheci
Ou que fingi conhecer,
Porém na maioria das vezes, eu também não me conhecia.
Queria ter andado mais livre,
Porém, algemado à ignorância, perdi muito tempo
Tentando voar sem sequer saber andar.

Queria ter lido mais livros,
Porém, analfabeto de ousadia, passei muitos anos
Enxergando pelos olhos adormecido de outras pessoas.
Também queria ter escritos mais poemas
Do que bilhetes pedindo desculpas,
Porém, as palavras sempre me vieram como culpa
E não como estrelas.

Queria ter roubado mais beijos e abraços
Das meninas que andavam desprotegidas,
Protegidas pela magia da infância,
Porém, cresci muito cedo, e a timidez sempre me foi
Uma lei muito severa a ser cumprida.
Queria ter pensado menos no futuro,
Porém, o passado simples nunca foi o melhor presente
E a eternidade sempre me pareceu coisa de gente que tem preguiça de viver.

Queria ter sido um homem mais humilde
Porém, a vaidade e a ganância sempre me cercaram
De mimos e coisas que até hoje não sei para que serviram.
Queria ter pregado mais a paz,
Porém, como um covarde, gastei muita munição tentando atingir amigos e
desconhecidos que não usavam coletes à prova de balas nem blindados no
coração.

Queria ter sido mais forte,
Porém rir dos vencidos e bajular os mais ricos
Sempre me pareceu o caminho mais curto
Para o esconderijo secreto das minhas fraquezas.
Queria ter dito mais a verdade,
Porém a mentira sempre foi moeda de troca
Para comprar o respeito e a admiração das pessoas fúteis
De almas vazias.

Queria que o mundo fosse mais justo
Porém, avarento de nascença, fui o primeiro a esconder o sol na palma da
mão, antes que o vizinho o fizesse.
E mesquinho por vocação escondi as noites com lua
Para que os poetas não a cortejassem.

Queria ter dito mais besteiras,
Porém fui desses idiotas amantes das proparoxítonas
E sujeito oculto nos bate-papos de botecos de esquinas,
Onde a vida não acontece por decreto.
Queria ter colhido mais flores,
Porém o medo de espinhos afugentou a primavera.

E outono que sempre fui,
plantei inverno quando a terra pedia verão.
Hoje queria ter acordado mais cedo,
Porém temo que pra mim
Seja tarde demais.


Sérgio Vaz


Sérgio Vaz




Levamos a cultura para o boteco. Em vez de as pessoas ficarem em casa, assistindo à novela, elas estão criando, escrevendo poesia, estão dando corda no mundo.


Sérgio Vaz
- poeta mineiro, idealizador da Cooperativa Cultural da Periferia - Cooperifa, de São Paulo


Ouça um poema de Sérgio Vaz



Os miseráveis




O autor é um dos convidados da 23ª Feira do Livro de Cachoeirinha, que ocorre de 25 a 29 de novembro, no Parcão. Sua participação no evento está programada para o dia 27, às 19h, na Sala da Literatura.


Sérgio Vaz



Antes de descobrir-se poeta, o mineiro Sérgio Vaz trabalhou como auxiliar de escritório, assessor parlamentar e vendedor de videogames. Ingressou na vida artística escrevendo letras de música. Tem cinco livros de poesia publicados, entre eles Subindo a ladeira mora a noite e Colecionador de pedras. Coordenou por dois anos um projeto que levava poesia às escolas da periferia de São Paulo. Em 2000, criou a Cooperativa Cultural da Periferia - Cooperifa, que, inicialmente, realizava saraus em uma fábrica abandonada de Taboão da Serra, os quais acontecem, atualmente, no Bar do Zé Batidão, em Piraporinha, na cidade de São Paulo, onde funciona, também, o Cinema na Laje, semanalmente, sobre o prédio. Neste período, já foram lançados mais de 40 livros de poetas e escritores da periferia, além de dezenas de discos. Segundo Sérgio, "A Cooperifa trabalha única e exclusivamente com o conhecimento. Por meio da poesia, muitos começaram a se interessar pela leitura, pela criação poética, e hoje já lançaram seus próprios livros. Por conta da literatura, vários jovens e adultos voltaram a estudar e alguns já estão até formados". Esse sarau inspirou a criação de mais de 40 outros, em várias regiões do país. Por seu trabalho inovador, Sérgio Vaz recebeu o prêmio Educador Inventor, concedido pela Unesco e pelo Projeto Aprendiz, de São Paulo.