Textos publicados originalmente na página do projeto Vamos Ler, às sextas, no Diário de Cachoeirinha.


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Contos de Terror I: Edgar Allan Poe



Os dentes de Berenice
Edgar Allan Poe,
adaptação de Clarice Lispector


Angustiado, cheio de repugnância e receio, fui até o quarto da morta. Um quarto grande. Escuro. Os cortinados do leito fechados sobre o caixão onde estava tudo o que restava de Berenice.
Eu quis ver o corpo. Era impossível resistir. Aproximei-me do leito. Ergui de leve as dobras das cortinas. Ao soltá-las caíram sobre meus ombros, separando-me do mundo dos vivos. Na mais perfeita comunhão com a defunta.
O ar do quarto era o ar da morte. O corpo parecia morto há dias.
O cheiro me fazia mal.
Tive um desejo louco de fugir dali, correndo. Mas, sem forças, eu parecia enraizado no chão. Os olhos fixos no cadáver. E juro. Por Deus, juro. Vi o dedo de Berenice mover-se debaixo da mortalha. E o lenço, com que lhe haviam atado o queixo, desatar-se. Não sei como. Sei que os lábios lívidos se torceram num sorriso. E, por entre a moldura melancólica, os dentes brancos, luzentes, terríveis, vivos, demasiado reais.
Saí correndo do quarto, como um louco.


Comemoram-se em 2009 os 200 anos do nascimento de Edgar Allan Poe (Boston, 1809 - Baltimore, 1849), um dos mais lidos e influentes autores da literatura ocidental. Foi o escritor do macabro, explorando sistematicamente os temas da morte e do horror, mas também da ficção científica e do mistério. Um de seus personagens, o parisiense Auguste Dupin, inspirou o surgimento de dois outros detetives célebres da literatura: Sherlock Holmes (do autor inglês Arthur Conan Doyle) e o inspetor Maigret (do belga Georges Simenon).

» Para ler este conto na íntegra, assim como outros do livro Histórias Extraordinárias de Allan Poe, traduzido e adaptado pela escritora Clarice Lispector, acesse http://books.google.com e digite o nome do livro no campo de busca.

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